Câmara de Comércio Exterior debate reflexos da pandemia em negócios internacionais

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Deputado Evair Melo disse em sua palestra que a humanidade vai se reescrever após passar pela pandemia da covid-19
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Carolina Braga
Deputado Evair Melo disse em sua palestra que a humanidade vai se reescrever após passar pela pandemia da covid-19
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Carolina Braga

28/08/2020

Os reflexos da pandemia do novo coronavírus nos negócios internacionais foi o principal tema da reunião da Câmara Brasileira de Comércio Exterior (CBCex). “Passamos por um momento conturbado no mundo, não só pela pandemia, mas também por conflitos, como entre Estados Unidos e China, porém estamos convictos de que são situações passageiras”, disse com otimismo o coordenador da CBCex, Rubens Medrano.

Ao justificar o convite ao palestrante da reunião, deputado Evair Vieira de Melo (PP-ES), afirmou que apesar de as negociações internacionais serem   conduzidas pela Chancelaria e pelo Ministério da Economia,  o poder Legislativo tem também um papel muito importante nesse processo, uma vez que cabe a deputados e senadores a ratificação dos acordos que vêm sendo firmados”, declarou.

O deputado Melo é presidente da Frente Parlamentar Mista do Comércio Internacional e do Investimento (FrenCOMEX. Ele falou sobre a atuação da Frente na política comercial e os impactos da pandemia no comércio exterior e nas exportações brasileiras.

Em sua análise, o parlamentar afirmou que, no atual cenário globalizado, a humanidade vai se reescrever após passar pela pandemia da covid-19. “Serão novos desafios que exigirão muito envolvimento de todos os atores. O mundo não estava preparado para enfrentar a pandemia e seus reflexos”, disse.

Um dos primeiros ativos que o mundo vê crescer, a seu ver, é o da segurança sanitária, algo que não está sob o total controle humano, porque sofre influências de agentes externos, como temperatura, humidade, radiação solar etc. É um desafio a ser enfrentado, não só pelo setor privado como pelo Estado, “que volta a ganhar importância estratégica para o sucesso dos negócios”.

E, sob esse aspecto, entende Vieira de Melo, o Brasil leva uma vantagem extraordinária porque tem duas coisas nas quais é muito competitivo: a pesquisa e a produção de alimentos. “O Brasil pode ser promotor da paz mundial ao produzir alimentos. O mundo tem medo de passar fome. Mas no Brasil isso nunca foi levado muito a sério porque o tema era apenas para exploração da classe política de pobre contra rico.”

Ainda nesse âmbito, o parlamentar lembrou que o Brasil tem a pesquisa agropecuária, que gera a produtividade, a qualidade final do produto. Mas ela tem, enfatiza, outro aspecto muito importante: essa pesquisa como defesa sanitária.

“Esse é um grande ativo brasileiro. Temos o domínio da tecnologia para combater e vencer problemas graves, como uma peste suína, uma gripe aviária, uma febre aftosa, uma vaca louca, uma fusariose no abacaxi, uma ferrugem na soja ou no café. Quero dizer que, no mundo do agro, fungos e vírus fazem parte do cotidiano e o Brasil tem tecnologia sofisticada para enfrentar.”

É por isso que, na sua opinião, embora venha apondo obstáculos à assinatura de um acordo definitivo com as nações do Mercosul, a Europa vai consolidar a parceria. A União Europeia é o segundo maior parceiro comercial do Mercosul. O Mercosul, por sua vez, é o 8º maior parceiro comercial extrarregional da União Europeia.

“E por que os europeus vão acelerar o passo? Porque a China, com sua habitual agressividade para fazer negócios e a necessidade de proteína animal para alimentar sua população, está investindo fortemente na compra de alimentos. Os chineses também estão tirando parte relevante de sua produção primária – algo em torno de 40% a 50% – da informalidade e, para isso, estão elevando a compra de soja e milho do Brasil para alimentar porcos e galinhas.”

O Brasil tem, neste momento, um grande campo de oportunidades de se tornar um grande fornecedor global, por ter experiência em grandes negociações internacionais. Tem ainda dois ativos importantes: água e espaço físico, um trunfo para receber novas fábricas como parte da reindustrialização mundial.

É claro que precisamos ter uma infraestrutura atraente, barateando a energia, ter segurança cambial, uma simplificação tributária, apoiar o investimento do setor privado, a plataforma portuária continuar crescendo, entre outros. Se isso for feito, dá para ser otimista em relação a oportunidades de negócios.

O deputado reconheceu que um desafio é acelerar a tramitação de proposições dentro do Parlamento. Ele se queixou do poder das corporações dentro do Congresso, mas também no Executivo. Deu como exemplo não ter se conseguido regulamentar, em meio à pandemia, o trabalho em home office. “Culpa unicamente do lobby das corporações.”

Mesmo assim, a seu ver, o Brasil avançou nas liberdades econômicas e ganhou com a aprovação das reformas da Previdência e trabalhista e o novo marco legal do saneamento básico, que facilita a privatização.

O parlamentar comentou ainda a discussão em torno das propostas de reforma tributária em tramitação no Congresso – uma na Câmara, outra no Senado e a do governo. “Temos que esquecer o passado e votar uma proposição olhando para o futuro. Para o parlamentar, o sistema tributário tem que ser muito ousado e corajoso para dialogar com as novas tecnologias, como o 5G, a próxima geração de rede de internet móvel, que acaba de chegar ao Brasil, trazendo maior velocidade, cobertura mais ampla e conexões mais estáveis.

Vídeo institucional

Durante a reunião, foi mostrado um vídeo institucional, com falas do presidente da CNC, José Roberto Tadros, e do coordenador das Câmaras Brasileiras de Comércio da entidade, Luiz Carlos Bohn, falando sobre organização sindical e a estrutura disponibilizada para mitigar os conflitos entre capital e trabalho. Segundo Tadros, depois do advento da covid-19, os empresários têm procurado a Confederação em busca de orientação sobre as negociações coletivas e chamando a instituição para participar.

“É importante lembrar que, nas bases onde houver representação sindical de patrões e empregados, a negociação se dá via sindical. Na ausência de sindicatos, essa tarefa é exercida pelas federações de comércio.” O dirigente enfatizou que os sindicatos têm que ser fortes e intimamente ligados às federações e estas à Confederação.

Tadros conclamou os empresários a acompanhar o Banco de Dados da Contribuição Sindical e o Sistema de Negociação Coletiva do Comércio, como fontes fundamentais de informação. Além disso, destacou que as Câmaras Brasileiras de Comércio são o principal espaço para que as lideranças do setor ouçam os empresários para conhecer a realidade e necessidades de cada segmento para dirimir dúvidas.

Em sua participação no vídeo, o 2º vice-presidente da CNC, Luiz Carlos Bohn, reforçou que a entidade quer ampliar a eficiência e o alcance das negociações por meio das reuniões das câmaras de comércio, pois é uma oportunidade de envolver os diversos setores e as empresas de cada base.

A pandemia afetou muito as relações jurídicas, notadamente a representação sindical, destacou. Por isso, novas ações precisam ser discutidas e implementadas “para que as entidades sindicais não só atendam às necessidades de seus representados, como estreitem ainda mais as relações dos empresários do comércio de bens, serviços e turismo”.

A negociação coletiva passou a ser importante ferramenta, ponderou o dirigente, “pois só com a negociação é que poderemos flexibilizar a legislação trabalhista”. Isso significa, enfatizou, maior atuação e comprometimento da entidade com seu principal consumidor, a empresa.

Para auxiliar nesse trabalho, está sendo reforçada a divulgação de ferramentas disponibilizadas pela CNC, como o Sistema de Excelência e Gestão Sindical (SEGS), o Banco de Dados da Contribuição Sindical, o Sistema de Negociação Coletiva do Comércio, a Rede Nacional de Assessorias Legislativas e a Rede Nacional de Representações do Sistema Confederativo do Comércio.

“É importante reforçar nosso compromisso e exercer a prerrogativa constitucional da negociação coletiva para atuarmos de forma diferenciada, e contribuirmos para a retomada da economia, bem como o constante crescimento do setor do comércio de bens, serviços e turismo.”

Negociações coletivas

O tema Negociações coletivas pós-pandemia trouxe participações do presidente  da Comissão de Negociação Coletiva do Comércio (CNCC) da CNC, Ivo Dall’Acqua Júnior, e da chefe  da Divisão Sindical da entidade,  Patricia Duque.

Dall’Acqua Júnior, que também é vice-presidente da FecomercioSP, disse que as necessidades surgidas durante a pandemia estimularam a Comissão a fazer alterações visando uma interação mais profunda e resultado mais eficiente para os representados.

“Trabalhávamos numa estrutura de representação das federações junto às Câmaras de Comércio, que agora está sendo alterada. Entendemos que há uma necessidade maior de que se chegue às necessidades mais específicas e que se tenha uma inteiração com a base representada que contemple a diversidade da representação do setor terciário, que inclui dos menores até os grandes empregadores do País.”

Não por coincidência, lembrou, o maior empregador do Brasil está dentro do Sistema Comércio, “que é o mais pulverizado em termos de representação”. Além do comércio de atacado e varejo, acrescentou o executivo, que também é diretor da CNC, “temos o setor de serviços e o de turismo e hospitalidade, que hoje está se ressentindo profundamente com a crise, mas que, quando a situação voltar ao normal, ganhará uma diversidade de representação e de criação de postos de trabalho”.

Em função desse quadro, na alteração da estrutura, está sendo aberto espaço na representação das federações, tanto as estaduais como as de categoria – como a de combustíveis e lubrificantes e a de contadores. “As câmaras setoriais de comércio trazem em seu bojo a representação direta dos empresários. Vimos na possibilidade de sua participação, indicando representantes junto à Comissão, um espaço de informação e troca que vai enriquecer o processo negocial”, justificou.

“Mais do que nunca, as negociações deverão ser customizadas. Finalmente, depois de mais de 30 anos da atual Constituição, com as categorias customizando suas necessidades e incorporando o que foi trazido pela reforma trabalhista, nós podemos dar uma resposta muito melhor e mais competente aos nossos representados”, concluiu.

Já a chefe da Divisão Sindical (DS), Patricia Duque, lembrou em sua fala que as entidades sindicais têm como sua maior prerrogativa a negociação coletiva. “Nós temos no Brasil um problema enorme, que são os custos trabalhistas em função da rigidez da legislação. A única forma de conseguir flexibilizar é através da negociação”, enfatizou.

“O nosso caminho é o da flexibilização”, defendeu Patricia lembrando que o Congresso Nacional resiste muito à iniciativa por uma questão de voto. “Ninguém vai contra o trabalhador ou a determinadas praxes porque isso implica perda de votos.”

Mas essa situação pode ser contornada por meio da negociação coletiva, principalmente depois da reforma trabalhista, “que foi um ganho para o setor patronal”. Mas esse ganho, alertou, terá que ser compartilhado através do diálogo social com os trabalhadores.

“Nós estamos querendo fazer isso, mas precisamos ouvir os empresários, saber onde estão os gargalos, em que pontos podemos avançar. Já que temos essa prerrogativa, vamos focar na negociação e tentar resolver em definitivo o problema da flexibilização”, afirmou. Para Patricia, no Congresso Nacional, com certeza, vai demorar muito tempo “porque é assim que acontece, especialmente quando implica mudança de legislação”.

A CNC, destacou a chefe da DS, continua com seu trabalho de defesa do empresariado. A Confederação acompanha no Supremo Tribunal Federal (STF) a Ação Declaratória de Constitucionalidade (ADC) nº 58, que teve liminar do ministro Gilmar Mendes, determinando a suspensão da tramitação de todos os processos no âmbito da Justiça do Trabalho em que se discutam se os valores devidos deverão ser corrigidos pela Taxa Referencial (TR) ou pelo Índice Nacional de Preços ao Consumidor Amplo Especial (IPCA-E). “A CNC vem atuando fortemente, apresentando memoriais e fez inclusive sustentação oral no STF”, informou.

“Mas é importante que os empresários se unam na defesa de seus interesses e municiem com informações a Comissão de Negociação.”

O também vice-presidente da CNC Luiz Carlos Bohn reforçou o que dissera no vídeo institucional no sentido de que seja oferecido às empresas o melhor produto, que é a redução do custo trabalhista através da negociação coletiva. Segundo ele, tudo o que a CNC promove de debate nas câmaras de comércio e na relação institucional com o Parlamento é importante, “mas é preciso reforçar justamente essa aproximação maior com a empresa. Esse engajamento dos empresários é primordial”.

Negócios Brasil-China

O empresário Henry Uliano Quaresma, CEO da Brasil Business Partners, fez palestra sobre Perspectivas de Negócios Brasil-China. O país asiático é um dos principais focos do interesse mundial por seu potencial de negócios. A Brasil Business Partners atua  na identificação de oportunidades, tanto no Brasil como no cenário internacional, articulando acordos de cooperação e parcerias e gerando negócios.

Ele fez uma avaliação da situação dos negócios no mercado internacional, na qual Estados Unidos e China disputam a liderança econômica mundial. O saldo dessa guerra comercial é que os norte-americanos já tarifaram U$ 550 bilhões em produtos chineses para tentar reduzir o déficit comercial em 17%. Já a China tarifou em U$ 185 bilhões os produtos dos EUA.

Informou que a tecnologia 5G é o grande ponto de disputa entre os dois países. Trata-se de uma revolução tecnológica que tem como objetivo conectar os itens usados do dia a dia à rede mundial de computadores. “Quando for implantada, vai mudar todos os paradigmas quando for implantada, o comércio, as relações comerciais e por isso a grande disputa.

No plano geopolítico, continuou, a pandemia serviu para ajudar os Estados Unidos na estratégia de barrar a ascensão da China na disputa em busca da liderança da quarta revolução industrial no mundo. “Os EUA  tem isolado a China pela guerra comercial e agora mais ainda com o coronavírus. O sonho chinês, que é o maior acesso ao consumo e a melhor qualidade de vida para a sua população de 1,4 bilhão de habitantes, tem proporcionado novas oportunidades para o mundo inteiro, como por exemplo vender no seu grande mercado”, disse. O Brasil, por exemplo, tem vendido muito na China.

Num comparativo entre o comércio eletrônico nas duas grandes potências, 88% dos usuários de internet na China farão pelo menos uma compra on-line neste ano e 41% de todas as vendas do varejo ocorrerão pela internet. Na comparação, nos Estados Unidos 82% dos usuários de internet participarão das compras pela rede mundial de computadores, mas somente 14,5% será via e-commerce.

A China tem o maior mercado de varejo digital do mundo e cresce numa velocidade muito superior aos maiores concorrentes. Atualmente, mesmo em meio a uma pandemia, as grandes redes conseguem fazer a entrega de produtos em até um dia. No Brasil, por exemplo, a média é de 11 dias.

O CEO da Brasil Partners revelou também que a China criou diversas áreas de comércio eletrônico. Para isso, ofereceu muitos incentivos fiscais para atrair companhias internacionais quiserem se instalar lá e utilizar o e-commerce deles. “É uma boa oportunidade para empresas brasileiras.”

Outro ponto que acirrou o conflito EUA-China, foram ordens executivas do presidente Trump que poderão banir do país, em 45 dias, dois aplicativos chineses, o TikTok, de uma empresa privada, e o WeChat, que é estatal, caso eles não sejam vendidos para companhias americanas.

A China, por sua vez, manteve seu foco em grandes negócios. Nos cinco meses de pandemia, várias empresas chinesas fizeram muitas aquisições de ativos relevantes pelo mundo inteiro. Na América Latina, o interesse maior é no Brasil e na Argentina.

O executivo destacou ainda números sobre o desempenho da economia, consumo de matérias-primas e a produção industrial e o comércio exterior. Sobre as exportações, o forte são máquinas e equipamentos, plásticos, veículos, vestuário, calçados, brinquedos e ferro. Na importação, a ênfase é para máquinas, minérios, alimentos.

A China é o maior parceiro comercial do Brasil em volume de vendas, tanto na importação quanto na exportação, “por isso os negócios entre os dois países têm que ser olhados com muito respeito”. As vendas para a China representam um terço do comércio exterior brasileiro. Ele chamou a atenção para uma peculiaridade: a China não tem tecnologia média, como fabricar aviões a motor, produção de cosméticos e isso, a seu ver, é uma oportunidade de investimento para empresas brasileiras. 

Além disso, o Brasil é o quarto país do mundo em volume de investimentos chineses. Os segmentos mais expressivos são o da agropecuária, indústria, construção, energia, mineração, comércio eletrônico e saneamento, ora por investimento direto, ora por aquisição de empresas, revelou Quaresma, que também é autor do livro O Fator China e o Novo Normal, referência na área de negócios com a China.

Projetos de interesse

As principais proposições legislativas de interesse em tramitação no Congresso Nacional foram detalhadas pelo advogado Elielson Almeida, da Divisão de Relações Institucionais (DRI) da CNC.

Um deles é o PL nº 5387/2019. De autoria do Poder Executivo, o projeto busca uniformizar o tratamento jurídico aplicado ao capital estrangeiro e ao capital nacional. O objetivo é conferir maior segurança ao investidor internacional e promover adequação a tratados internacionais dos quais o Brasil é signatário.

Elielson Almeida explicou que a proposta prevê a ampliação da oferta de serviços financeiros ao comércio exterior, como empréstimos a não residentes, a fim de, por exemplo, permitir o financiamento de importadores de produtos brasileiros por bancos nacionais. O projeto retira ainda as restrições à utilização de recursos mantidos no exterior por exportadores brasileiros.

O projeto de lei autoriza o Banco Central a expandir gradualmente a possibilidade de titularidade de contas em moeda estrangeira no Brasil. “O projeto vai contribuir para a desburocratização e simplificação das regras relacionadas ao câmbio.” O PL aguarda a criação de Comissão Temporária pela Mesa Diretora.

O assessor da DRI falou ainda sobre o PL nº 9.044/2017, do deputado Evair Vieira de Melo, que estabelece a obrigatoriedade de adoção de medidas de restrição a importações. A iniciativa tem parecer do relator, deputado Daniel Vilela (MDB-GO), pela constitucionalidade.

O projeto altera o Art. 74 do Código Florestal para determinar que as medidas nele previstas serão obrigatoriamente aplicadas quando se tratar da importação de leite in natura, leite em pó e soro do leite em pó produzidos em países que não observem normas ou padrões de proteção do meio ambiente compatíveis com as estabelecidas pela legislação brasileira.

Já o PL nº 6.370/2005, do Poder Executivo, altera a legislação aduaneira. A iniciativa dispõe sobre a movimentação e armazenagem de mercadorias importadas ou despachadas para exportação, alfandegamento de locais e  recintos, a licença para explorar serviços de movimentação e armazenagem   de mercadorias em porto seco. 

Segundo Almeida, Ementa apresentada cria novo modelo de licença para exploração dos recintos aduaneiros de Zona Secundária, denominando-o Centro Logístico e Industrial Aduaneiro (Porto Seco). Acaba também com o processo licitatório, permitindo a qualquer empresa que atenda aos requisitos exigidos, criar uma zona secundária, proporcionando maior competitividade neste segmento de mercado. O projeto está pronto para ir a Plenário.

O projeto de lei nº 6.406/2019 dispõe sobre a imposição de penalidades relacionadas ao comércio exterior. Trata dos processos relacionados à pena de perdimento (punição aplicada ao importador que incorre em situações de irregularidades durante o procedimento de importação de mercadorias).

O relator, senador Eduardo Braga, apresentou parecer favorável ao projeto. Segundo o assessor da CNC, a legislação do comércio exterior é complexa e grande parte é anterior à Constituição Federal de 1988, “com tendências protecionistas que não condizem com o mundo globalizado”. Acrescentou que hipóteses para não aplicação da pena de perdimento, que era para ser a exceção (gravidade), na prática é recorrente.

Almeida citou finalmente o PL nº 4.814/2019, que dispõe sobre o exercício da profissão de despachante aduaneiro e de ajudante de despachante aduaneiro. Segundo ele, o tema tratado no projeto de lei já tem tratamento legal em decreto-lei, o que pode gerar insegurança jurídica. Neste momento, a proposição a guarda parecer do relator, deputado Orlando Silva (PCdoB-SP).

Incidência de IPI

O advogado Fernando Mello, da Divisão Jurídica, fez palestra sobre a incidência do IPI na revenda de produtos importados, previsto no Recurso Extraordinário nº 946.648, no Supremo Tribunal Federal (STF).

O entendimento do Judiciário brasileiro, segundo ele, sempre foi no sentido de que IPI devido na importação é pago no desembaraço aduaneiro. Ocorre que a União desenvolveu uma tese, a partir da interpretação dos artigos 46 e 51 do Código Tributário Nacional, no sentido de que o IPI poderia ser cobrado também na revenda do produto importado, ou seja, haveria dupla cobrança.

A CNC está envolvida com a questão desde quando ela ainda era julgada no Superior Tributal de Justiça. “Infelizmente, embora houvesse o entendimento de alguns ministros contrários à dupla cobrança, por maioria a corte entendeu que era possível, sim, a segunda cobrança de IPI.”

O processo foi para o STF, onde a CNC atua como amicus curiae (amigo da corte), apresentando memoriais e estudo contratado junto à Fundação Instituto de Pesquisas Econômicas (FIPE), o qual mostra os eventuais danos para o País se a tese aprovada no STJ se confirmasse. “Essa segunda cobrança é inconstitucional,” disse o advogado.

O coordenado da Câmara, Rubens Medrano, concordou: “Essa cobrança em dualidade do IPI é um absurdo. Temos consciência que a indústria é favorável, mas o comércio sustenta que não faz sentido, além de ser ilegal.”

Em 2018, a ação foi retirada de pauta e voltou agora. Em junho, em julgamento virtual ainda em andamento, o relator, ministro Marco Aurélio de Mello, entendeu pela impossibilidade da cobrança de IPI na revenda da mercadoria importada. O ministro Fux acompanhou Mello. O presidente do Supremo, Dias Toffoli, divergiu do relator e votou pela possibilidade de cobrança e foi acompanhado pelo ministro Alexandre de Moraes.

Divisão Econômica

O Comércio Internacional Pós-Covid foi o tema abordado por Izis Janote Ferreira, da Divisão Econômica da CNC. Segundo ela, houve aumento do saldo da balança comercial de bens e serviços, entre março e julho. Nesse saldo, tem se observado uma redução expressiva das importações e manutenção das receitas de exportações em função do câmbio.

O que tem motivado o crescimento do saldo comercial nas operações de comércio exterior de bens é justamente uma queda mais expressiva nas importações, explicou. “O próprio câmbio tem dificultado. Observou-se uma volatilidade muito significativa nos dois primeiros meses da pandemia, em que os importadores tiveram que recorrer aos instrumentos derivativos para poder fazer frente à maior cotação.”

As importações tiveram um impacto negativo, já as receitas de exportação foram beneficiadas em função desse câmbio. O que se constata, segundo Izis, é que o volume de vendas externas não tem crescido e está cada vez mais concentrado – atualmente, 60% – em produtos básicos destinados à China.

Pode-se afirmar, conforme a economista, que esse contexto só ganhou ênfase durante a crise, na medida em que já vinha acontecendo, como a concentração em produtos básicos, a redução do volume de negócios com o exterior em geral, maior destinação para a economia chinesa e a redução da participação da indústria de transformação.

Em relação às quantidades e preços, Izis disse que se constatou uma redução de preços exportados durante a pandemia. “Isso pode ser um fator de ajuste nas receitas, mas o câmbio deve continuar em patamar elevado, em função de muita incerteza que existe no combate à covid-19 e às variáveis macroeconômicas, tanto pelo lado da oferta como pelo da demanda”, pontuou.

No que diz respeito à balança de serviços, a economista da CNC disse que houve uma queda bastante intensa, tanto nas despesas quanto nas receitas. “Isso acabou diminuindo um déficit histórico que o Brasil tem na balança de serviços”, acrescentou. Ela projeta que esse contexto deve se manter nos próximos meses.

“A pandemia teve uma repercussão muito importante, tanto nos preços como na demanda de produtos externos, e a incerteza ainda prevalece sobre a evolução incerta em relação à recuperação da atividade”, analisou. A China, segundo ela, continuará sendo o principal parceiro comercial do Brasil, com perspectiva de crescimento de embarques. Já para os Estados Unidos houve uma redução das vendas, assim como para a Argentina.

O saldo da balança comercial pode fechar 2020 entre U$ 55 bilhões e U$ 60 bilhões, superior ao saldo do ano passado, de U$ 46 bilhões. “Como há ainda muita incerteza sobre o comportamento da economia, não é possível fazer uma estimativa mais próxima da realidade por conta da necessidade de ponderar outras variáveis, como o tamanho do desafio fiscal que a economia brasileira enfrentará nos próximos meses.

Existe, na avaliação de Izis Ferreira, uma dificuldade de cumprir as regras fiscais em vigor porque o contexto é de aumento progressivo da despesa pública e, ao mesmo tempo, frustração em relação à receita. Isso está fazendo com que o déficit público só cresça.

“O maior desafio hoje para sustentar a retomada econômica que possa se refletir num momento melhor para o comércio exterior e se traduzir em juros estruturais mais baixos – que é determinante para o comércio exterior – é justamente a evolução do déficit primário, que tem a ver com foco na redução da despesa, já que não há espaço para aumento da carga tributária hoje muito elevada”, concluiu.

Semana Brasil

O coordenador Rubens Medrano anunciou, no final da reunião, o engajamento da CNC na realização na segunda edição da Semana Brasil, de 3 a 13 de setembro, que será a primeira grande data do varejo após cinco meses de pandemia. O evento é promovido pelo Instituto para Desenvolvimento do Varejo (IDV) e visa unir o comércio e o varejo do País para criar uma realidade e celebrar a retomada responsável das atividades econômicas.

“O comércio foi muito prejudicado pela pandemia, muitas lojas tiveram que fechar suas portas, várias em caráter definitivo, além da questão delicada do desemprego”, observou Medrano. Para ele, Semana Brasil poderá ser o primeiro grande evento para alavancar o comércio no pós-pandemia.